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Submeter

por MC, em 30.07.15

As horas porejam devagar e o frescor relativo da noite alivia a canícula parada e asfixiante do estio beirão. Mais um par de horas e a aldeia acordará para as tarefas do cultivo que só a frescura da madrugada consente.

Os olhos ardem-lhe e lacrimejam, enleando as letras e os números num bailado difuso à luz artificial do monitor. Na mesa, dúzias de folhas soltas deslizam ao sabor dos pequenos assobios da brisa que entra branda pela janela aberta.

A palavra SUBMETER continua a bailar-lhe diante dos olhos, mas o indicador permanece, nervoso e rígido, a pairar sobre a tecla. Adia um pouco mais o inevitável para rever os passos um a um. A fadiga, porém, atropela a concentração e desnorteia-lhe o pensamento. Dá por si a deitar outras contas à vida. Pensa na sua família: homens e mulheres do campo, numerosos, rudes, encorpados e fortes. Pensa nos pais, trabalhadores invencíveis – agora velhos e doentes. Pensa nos avós, tios e primos, na forma una, quase militar, como se movimentavam em bloco para enfrentar as durezas da vida ou comungar das alegrias e festejos.

Foi a primeira da sua família a concluir «os estudos». Os pais, guardadores de ovelhas desde os primeiros passos, não viram a escola senão por fora, a caminho da missa. Os tios mais novos foram mais ditosos e conseguiram uma breve incursão no mundo das letras, mas nenhum singrou para além da quarta classe.

A mãe levou-a à escola no primeiro dia, resoluta e briosa, depositando-lhe na mão que a segurava uma certeza inabalável da absoluta relevância daquele caminho. Não contavam, no entanto, com aquele devir: à medida que os anos passavam e ela se revelava a aluna excelente que sempre foi, o olhar dos seus pais nunca deixou de espelhar um profundo assombro, como se não discorressem razões para tal dádiva despropositada num lar tão asinino.  

O seu futuro encheu-se de possibilidades, mas a escolha estava feita, desde aquele primeiro dia em que a mão da sua mãe, cosida na sua, lhe mostrou o caminho da escola: queria ser professora. Apaixonou-se, entretanto, pela Matemática e o seu brilhante percurso académico colocou perante si outras grandezas. Todavia, acabou por conjugar as duas paixões primeiras num percurso que sabia não ser fácil.

Este que terminou foi o seu décimo quinto ano como professora contratada de Matemática. Já trabalhou em mais de uma vintena de escolas, várias em simultâneo - algumas em cidades diferentes. Já ensinou meninos do quinto ao décimo segundo ano, já viveu em várias regiões do país, a muitos quilómetros da sua casa.

No ano lectivo passado viveu a situação mais angustiante da sua vida de ‘caracoleta’, como diz o pai. No espaço de quarenta e oito horas foi colocada numa escola a seiscentos quilómetros da sua aldeia, viajou para lá com o coração carregado de ansiedade, aceitou o lugar, arranjou alojamento, pagou caução, viu a colocação naquela escola anulada por erro dos serviços centrais, chorou, perdeu o dinheiro, voltou para casa, chorou mais, ficou colocada em mais três escolas diferentes, todas distantes entre si, perdeu a calma, perdeu a fé, fez muita força para manter a dignidade. Já em Outubro, foi colocada num agrupamento de escolas de uma cidade a cento e quarenta quilómetros de casa, para onde se deslocou todos os dias úteis do ano, para cumprir um horário com mais furos que a peneira velha da sua avó, esquecida em desuso no alçado do velho fogão de lenha. Levantou-se todos os dias às cinco da manhã, para iniciar as aulas às oito e quinze. Durante cerca de dez meses, viveu para a sua vida profissional. Leccionou a várias turmas dos sétimo, oitavo e nono anos, em duas escolas diferentes do mesmo agrupamento. Cada turma tinha cerca de trinta alunos. Planificou, coordenou, elaborou instrumentos de avaliação, aplicou-os, corrigiu-os, preparou exames, deu aulas suplementares, corrigiu exames, vigiou exames, avaliou, assistiu a reuniões, redigiu actas, produziu relatórios, dinamizou actividades, participou em projectos.

Nada disto a cansa tanto como ouvir pessoas do seu país a dizer que só vai para professor quem não conseguiu ser mais nada. Que os cursos de professores são o fundilho das carreiras académicas e que, por conseguinte, não vem mal ao mundo que sejam sujeitos a esta terapêutica. E a prova mais óbvia de que estão mesmo a pedir aquilo que lhes acontece é que são tratados desta maneira pelos governantes do seu país e continuam a submeter-se a tais humilhações: se fossem pessoas capazes, já teriam partido para futuros mais risonhos.

Nada a exaure mais do que a impreparação técnica de quem congemina processos tortuosos, caóticos e surrealistas de colocação de professores; a desconfiança maliciosa dos líderes do seu país, que a tratam como uma meliante perniciosa sempre à espera de uma oportunidade de lesar a sociedade com falsas declarações e erros ortográficos. Nada a esvazia mais do que a obscena crueldade de estar, às três da madrugada de uma soberba noite de Verão, a submeter inutilidades degradantes num processo de complexidade insana que lhe permitirá (talvez) voltar a exercer a profissão que (ainda) ama.

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publicado às 17:17

Quando a senhora chegou, estavam já várias pessoas na sala de espera. Disse um “boa tarde” baixo, mas cristalino e olhou em volta, à procura de um lugar vazio num dos sofás robustos e sóbrios, forrados a veludo verde-escuro. Trazia um tailleur beige irrepreensível, que combinava na perfeição com as madeixas de um louro acinzentado que lhe repousavam, imóveis, sobre os ombros. Pela mão, trazia uma coisinha pequenina de caracóis castanhos e enormes olhos pestanudos.

“É só um momento, minha senhora, o Sr. Doutor já vai recebê-la”, informou a recepcionista com cortesia. A senhora assentiu em silêncio, sentou-se na beira de um dos sofás, baixou o olhar e disse: “Sebastião, sente-se aqui.” Pegou ao acaso numa das revistas da mesinha e começou a folheá-la com ar enfastiado e indiferente.

O Sebastião, que aguentara sentado não mais de trinta segundos, levantou-se, abandonou a PSP com descaso na dobra do sofá e – como que possuído por uma força oriunda de poderes do oculto – pintou a manta.

O Sebastião pulou em cima dos sofás (mesmo dos que já estavam ocupados por outras pessoas) ao melhor estilo olímpico, fez equilibrismo nas costas dos cadeirões, saltando de um para outro e daí para cima da mesa e vice-versa, viajou de reposteiro em reposteiro, qual Tarzan perseguido por uma praga de pulgas, abriu e fechou as gavetas da secretária da recepção com a delicadeza de um rinoceronte, atendeu e desligou o telefone as vezes que muito bem lhe apeteceu, gritou como um bezerro desmamado quando entalou o dedo numa gaveta do arquivo (ainda está por apurar se a recepcionista terá sido totalmente alheia a este infeliz acontecimento), cantou a plenos pulmões, mal se esqueceu do incidente digital, cuspiu na senhora antipática que não o deixou mexer nos óculos - e ainda distribuiu, democrática e persistentemente, pontapés por tudo o que mexia e não mexia naquela abençoada sala de espera.

A mãe do Sebastião regressava, de quando em vez, daquele mundinho secreto só dela, para murmurar: “Sebastião, esteja quieto”, “Sebastião, oiça, isso não me parece bem”, “Sebastião, isso não são modos”…

E só entendeu dirigir, magnânima, algumas palavras à plateia catatónica, quando a PSP voou, certeira, das mãozinhas gorduchas do Sebastião, para embater em cheio nas pernas do senhor pálido e ansioso que se sentava, encolhidíssimo, no canto mais recôndito da sala.

“Ai este meu filho… é uma criança muito especial”, suspirou. “É muito temperamental, tem um carácter muito forte, uma personalidade vincadíssima! Émuito obstinado, ninguém consegue convencê-lo a fazer o que não quer!”, declarou, num misto de resignação e orgulho.

E quando, instantes depois, estando o querido Sebastião em “Godzilla mode” a esmigalhar lápis de cera à força de patadas com as delicadas botinhas ortopédicas, a recepcionista chegou com a bendita libertação: “O Sr. Doutor vai recebê-la agora”, a senhora adentrou, elegante e segura, levando a cria pela mão, deixando a plateia estarrecida, de olhar perdido no vazio, numa tentativa desesperada de estabilizar a pressão arterial.

 

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publicado às 19:42

Resist(ir)

por MC, em 17.07.15

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Sobre a colcha branca agrupam-se montinhos de roupas. Algumas camisolas dobradas em quadrado, cuecas embrulhadas em forma de envelope, as meias perfeitamente enroladas em pares, três pares de calças esticadas à cabeceira, algumas camisolas de lã, três cachecóis e dois gorros. Várias camisas irrepreensivelmente engomadas repousam com leveza aos pés da cama e a parka cinzenta de forro duplo contrasta acintosa com o calor intenso que escorre da varanda aberta e alaga o quarto.

O rapaz conta baixinho, conferindo uma lista imaginária plasmada nas paredes nuas do quarto. Lá de fora chegam as vozes pequeninas das irmãs que brincam na sala. Os seus risos misturam-se com os barulhos da rua. Reconhece a voz cantada da ‘m’na’ São, minhota de pelo na venta, que assoma à ombreira da mercearia, a descompor os garotos que lhe passam à porta e lhe levam mãos cheias de cerejas antes de cortar para a travessa do meio. Ouve a voz cansada do pai a saudar a menina Isabelinha, ‘boa tarde menina’, ‘boa tarde, Sr. Faustino, está com muito bom ar hoje’, replica ela, a bondade a velar o rigor.

Uma súbita vontade de gritar impulsiona-lhe do fundo da garganta um gigantesco, infinito NÃO. Não quer ir, não quer arrumar na mala os montinhos de roupa que tão cuidadosamente organizou, não quer sair do seu quarto de varanda rasgada para o bairro que o viu nascer, de prédios velhos com estendais coloridos, manifestações tão cruas das suas pessoas.

Tenta chamar a si a razoabilidade que teima em fugir-lhe, porque toda a gente sabe que a razoabilidade é a melhor maneira de aniquilar os gritos. Pensa no seu curso que inflou de brio e esperança o olhar dos pais, pensa nos estágios ‘profissionais’ (o primeiro não remunerado, os seguintes pagos pelo estado), as empresas onde trabalhou: a primeira, onde ainda lhe são devidos os salários dos últimos meses, depois o hotel onde lhe era exigida disponibilidade total, a qualquer hora do dia ou da noite, turnos consecutivos a soldo mínimo.

O primo Manel, sabendo das dificuldades, dispôs-se a levá-lo consigo para a Suíça. ‘Aquilo sim, é um País’. Lá não falta trabalho para quem quer trabalhar. As ruas são limpas, os bairros são calmos, as competências florescem. O rapaz não descrê, não senhor. Há-de ser tudo isso: um mundo maravilhoso de oportunidades, de maneiras civilizadas e hábitos progressistas. Já o industriou o primo Manel que nem sequer se pode puxar o autoclismo a partir da dez da noite, para não incomodar os vizinhos com barulhos escatológicos.  

Tal excentricidade não apoquenta o rapaz. Ocorre-lhe, no entanto, que será provavelmente no silêncio normalizado da noite helvética que o atacarão à sorrelfa as saudades do torvelinho barulhento e desregrado da sua rua.

 

 

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publicado às 14:45

Rankings

por MC, em 09.07.15

 

Na turma 9A havia este ano trinta e um alunos. A sala 15, onde decorreu a maior parte das aulas, começou por ter doze mesas alinhadas na frente de um quadro antigo, negro e estriado. 

 

No dia da apresentação, ficou claro que não ia ser fácil arrumar aquela gente toda. A directora de turma lá ficou na frente, espremida entre o quadro e a sua secretária, a revirar os olhos nervosamente sempre que entrava mais um. Às tantas, aquilo começou a ficar um bocado fora de controlo e a professora pediu à funcionária que trouxesse mais cadeiras. A funcionária chamou outra colega, que chamou outro colega, que chamou alguém da direcção. Conversa, mais conversa, patati, patatá, não havia mais mesas, não havia mais cadeiras.

 

Alguém se lembrou das mesas antigas do segundo ciclo guardadas na arrecadação do ginásio. As mesas estavam todas desirmanadas, eram de formatos e alturas diferentes, algumas eram mesmo muito baixinhas, pareciam do primeiro ciclo. Havia-as de todas cores, algumas lascadas, outras rachadas, umas visivelmente estropiadas, outras ainda em bom estado. As melhores foram transportadas para a sala. Eram todas mais baixas do que as que já lá estavam. Desenrascou-se um esquema em escadinha, as maiores atrás, depois as médias mais ao centro e uma fila dianteira das mais pequeninas e coloridas. Depois organizou-se um casting: todos em fila desordenada e barulhenta aguardavam as instruções da directora de turma. Simulavam-se audições para programas de talentos. A risota generalizada fazia esquecer o calor abafado e a sensação de mal-estar. Os mais altos iam sendo encaminhados para as mesas de trás, para os mais pequenos sobraram as cadeirinhas coloridas de brincar. 

 

E assim foi decorrendo mais um ano lectivo. A sala de aula, organizada em camadas, parecia uma bancada improvisada de circo pobrezinho. Os professores lá foram fazendo os seus números de contorcionismo no espacinho reduzido entre o quadro e as mesas. A continuar assim, é bem possível que ainda tenham que vender pipocas nos intervalos. 

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publicado às 15:14

Pobre Pátria

por MC, em 07.07.15

 

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(Todas as palavras podem ser confirmadas no Vocabulário Ortográfico Comum (variante PT-PT): http://voc.cplp.org/.)

 De: Tradutores Contra o Acordo Ortográfico

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publicado às 22:21

O exame

por MC, em 02.07.15

 

O dia mal começou e o sol encharca já as salas. A luz, abrasadora e asfixiante, desenha quadrados largos no chão da sala. As carteiras perfilam-se milimetricamente como pequenos soldados na parada. Os meninos movem-se com curiosidade e medo através dos corredores da escola “grande”, que visitam pela primeira vez. O rigor da solenidade trava-lhes a gargalhada habitualmente fácil e distorce-a em pequenos segmentos de risinhos nervosos. Os olhos inquietos percorrem os detalhes, buscam o número das salas, procuram um rosto conhecido.

À porta da sala, a espera inflama a ansiedade. A fila desorganizada fervilha de nervosismo. Pequenas gotículas de transpiração nos rostos vermelhos, palmas das mãos húmidas a resvalar nas roupas, olhares furtivos para dentro da sala, numa tentativa de reconhecimento do recinto da refrega. Lá dentro, os professores vigilantes aprontam os detalhes da função e começam a fazer a chamada com ar solene.

Enquanto se sentam respeitosamente nas carteiras, os meninos tentam lembrar-se de todas as recomendações que a professora repetiu exaustivamente nas últimas semanas e que começavam invariavelmente por “os alunos não podem…” ou então “os alunos devem sempre…” Acompanham o percurso dos professores vigilantes no desenrolar do cerimonial. Escutam a leitura formal das instruções e os seus olhos procuram nos gestos impessoais daqueles professores desconhecidos um abrigo de familiaridade que não conseguem descortinar.

Quando a prova finalmente começa, o calor é já insuportável. Os minutos gotejam lentamente. O professor, encostado à parede no topo da sala, observa a plateia com olhos de quem contempla outra coisa. A professora vagueia por entre as mesas, adivinhando o fervilhar febril das cabecitas debruçadas sobre os números.

Na última carteira da fila do meio, o menino queda-se, hirto e rubro. A franja escura pega-se à fronte suada, os olhos vermelhos e o semblante tenso espelham uma aflição profunda. À medida que se avizinha da criança, a professora lê rapidamente os sinais de inquietação e apercebe-se da profusa transpiração do menino, tão intensamente que até parece que ouve os pingos a gotejar. Aproxima-se e descortina nos olhos do garoto um grito silencioso de socorro. O respingar deixou de soar na sua imaginação e transporta-se para a realidade. No chão, por baixo da cadeira do menino, uma pocinha de líquido dourado alastra pelas juntas da tijoleira.

Quando os olhares se cruzam, o rubro das faces torna-se escarlate. Na mente da professora, a aflição do menino abalroa a exigente formalidade dos normativos. Oferece-lhe o mais apaziguador dos sorrisos, sussurra-lhe a calma maternal que todas as crianças entendem. Silenciosamente, insta-o a levantar-se, pega no enunciado do exame, na caneta e no lápis roído do menino e coloca-os numa mesa vazia da fila do lado. Convida-o a sentar-se naquela outra cadeira e ata-lhe à cintura, de molde a tapar o fundilho dos calções, o casaquinho de malha que trazia nos ombros. Sempre em silêncio, incita-o a continuar, dando palmadinhas suaves nas folhas semipreenchidas de números redondinhos e zelosos, e oferece-lhe uma piscadela de olho que recebe de troco um sorriso tímido de agradecimento.

Tudo o que aconteceu naqueles curtos momentos é rigorosamente ilícito e fortemente desaconselhado pela norma, lembra-lhe o olhar incomodado do outro professor, que a professora finge não ver.

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publicado às 17:54


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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